quarta-feira, 23 de junho de 2010

Experimento Pessoal 2: Confissão

Permitam-me mais uma vez expressar-me.

"Você é um monstro. Não tem coração nenhum". Primeira vez que ouvi essa frase eu tinha 14 anos e a imaturidade era minha definição de personalidade e consequentemente, achei absurdo alguém pensar isso de mim repetidas vezes.
Ainda não sei se quero aceitar esse fato, até porque fatos são incontestáveis, e não queria uma característica pessoal tão escancarada. Mas pensando assim, já a assumi. Mas ainda assim, não quero pensar nisso agora. Porém deixe-me tentar me exemplificar em tal crueldade.
Fato 1: Uma menina no ônibus. Não deveria ter mais que 12 anos, magra, negra, pobreza estampada na forma de vestir. Esteriótipo de uma visão mais comum do que se imagina e eu não me lembro de ter confrontado tal realidade antes. Ela estava sentada na cadeira alta do ônibus, em tantos lugares, estranhamente vazios, ela quis o lugar alto, atrás de mim que se encolhia no assento baixo. Não era a timidez sua marca, nem o embarassamento por suas roupas, mas a altivez contraditória a quem ela aparentava. Uma visão de preconceito social. O ônibus parou num sinal e ela, com ousadia inocente, provocou uns guris, que estavam de bicicleta, com potencial para serem marginais: e eram! eles perseguiram o ônibus para tentar pegá-la quando ela descesse. Medo e orgulho estavam estamapados na cara. Vi a reação de todos no ônibus, maioria mulheres em querer defendê-la. Se compadeceram. Aconselharam-na a se abaixar para dispistar a perseguição. Conseguiu! Vi o alívio, revolta, e piedade em tantos rostos distintos por suas idades. Mas não me lembro de ter demonstrado nada disso.
Fato 2: Em um salão de beleza. Todas distraídas em seu próprio espelho. Quando se ouve um acidente da rua. Rapaz novo, motociclista, estava certo. Vi os olhares trêmulos, a preocupação em chamar a polícia/ ambulância/ mãe do rapaz. Uma delas chorou ao lembrar do filho morto. Eu só me lembro de observá-las e de não fazer mais nada além disso.
Fato 3: Um homem caminhando. Calçadão típico de pessoas que querem manter a forma ou emagrecer. Bairro nobre de Aracaju. E em um lance não demorado, enquanto o ônibus estav meio engarrafado no semáforo, o vi parar, respirar fundo ir para o outro lado da rua e chorar numa árvore. E chorava olhando para a rua a frente, como uma criança que tinha acabado de levar a maior bronca de sua vida. Soluçava. Nem se importava de limpar seu rosto das lágrimas. O que eu poderia fazer naquele momento?
Ouvi de um professor que "só sabe o que é estar vivo, quando se sente dor". Ele citou um outro autor, de um texto que não prestei atenção porque só essas palavras ecoavam em minha cabeça enauqnto eu observava todos na sala acenarem em concordância e alguns até acharam naquilo um consolo. Pra mim, soaram apenas como palavras verdadeiras, mas que continuavam ecoando, a ponto de querer escrevê-las hoje. Confronto a minha própria existência. O que me fez questionar: não ser assim é ser monstro ou é não estar vivo? "Você é uma pessoa que chora assitindo filmes mamão-com-açúcar, adora cachorrinhos e não consegue chorar em um momento que exige verdadeira seriedade. Você nunca sabe o que é real e com isso só vai conseguir não ser amada". Ouvi isso depois de adulta. Nunca foi tão difícil me ver madura.

"I wont think about this today. I 'll think about this tomorrow". (Scarllet O' Hara)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Espelho, espelho meu...

Aah, como somos vaidosos. Como adoramos um cumprimento, amamos um elogio e viciamos em um "Nossa, parabéns". Nos domesticamos rapidamente com qualquer atitude que possa nos fazer reconhecer em nossa importância de vida. Como querer saber se somos mesmo importantes.

Eu mesma me peguei numa corrida essencial para obter elogios assim que fiz esse blog: queria que todos lessem e que comentassem minhas percepções agora em letras. Pedia, indicava, chateava de tantos pedidos: "Leiam meu blog!". Clamava como se fosse um grito desesperado de "Por favor, vejam como eu sou". Queria comentários, opiniões, elogios, queria o "Nossa, parabéns". Palavras. Expressadas na maior educação apenas para acalmar minha ansiedade e inundar meu ego em satisfação.

"Assim caminha a humanidade", para a busca inalcançável dessas palavras. Muitas, muitas delas, para que assim findassem questionamentos infinitos:

- sou bonito?
- sou legal?
- sou inteligente?
- sou bonito, legal e inteligente?

A busca da perfeição.

Ressaltar-se aos olhos de alguém e marcar a alma da pessoa de tal forma a ponta dela dizer: "Nossa, parabéns". Se ver útil. Num mundo tão cheio de pessoas, se achar esplendorosamente único digno de ser especial e único dono desse elogio. A busca da importância.

Ser especialmente importante a ponto de não se achar descartável, e logo em seguida ouvir as perguntas que estavam caladas dentro de nós o tempo todo, mas resolveram falar:
Quem me ama? quem quer me amar? quem me odeio e por que?....E porque ninguém me nota a ponto de me odiar ou me amar?
A busca da razão de viver.

E logo depois as perguntas mudam de tom:

-estou vivo?....porque?

Se olhar no espelho e se ver gente: perfeito, importante, útil. Responder o porquê de estar vivo...e para quem continuar a viver.

Isso soa tanto com adestrar animais: fazer tudo para merecer um biscoito e um carinho na cabeça de "bom menino".

É bom não depender tanto disso. É bom seguir como se nao tívessemos que olhar pro outro. É bom olhar pro interno e ao invés de perguntar, sorrir consigo: isso dará tempo suficiente de fazer essas perguntas na hora certa.

Pobre rainha, que precisava constatemente disso para saber de sua existência! Pobre espelho, que se obrigava a mantê-la viva. Pobre rainha, quando descobriu que nada mais valia. Ai de mim se já pensei assim! Bom pra mim que não penso mais assim.!
E você que nunca pensou...."Nossa, parabéns"!


Acho que realmente, não precisa de música para refletir sobre isso!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Descobri: sou humana...

Eu achei que pudesse aguentar ser odiado por alguém, principalmente quando é alguém muito próximo a mim. Mas não, não sou tão forte assim. Dói. E por mais que tente ver o lado bom da convivência com esse sentimento, não consigo: ele não existe. E mesmo que todos os argumentos para justificar esse ódio sejam infundados e miúdos, ainda assim, sempre me vejo como uma criatura tão pífia que aceita todo o julgo de coisas que não fiz, a fim de contornar um sentimento tão direto. Não funciona: Isso vira confissão. Pena: Acusações eternas, sem direito a advogados.

Eu achei que pudesse ter pecados/erros perdoados. Mas eles não podem. e não serão.

Não há humanidade no ódio: é pura e simples crueldade humana!

Queria eu ser tão fria e tão imparcial quanto a isso, no entanto, cada dia mais me sensibilizo e me desaprovo, me sinto pequena, me sinto humana. E honestamente, isso não é bom!

sábado, 2 de janeiro de 2010

Experimento pessoal

Hoje eu não me calei. Eu sei que deveria ter ficado quieta, deixado pra lá mais uma vez e simplesmente ignorado, como sempre faço, afinal é o melhor. Não quis.Falei aquilo que queria, exagerando por causa da Raiva. Desabafei e não posso culpá-la. Aliás, por que gostamos de culpar a Raiva?

Faço questão de colocá-la em "r" maiúsculo para demonstrar como há poder quando a uso...

Eu sempre acreditei que a Raiva nos ajuda a exagerar a verdade em nossas palavras e em nossos atos. Hoje queria falar tanta coisa, queria poder desabafar, hoje quis a ajuda dela. E a tive. Consegui gritar, coisa que raramente conseguia fazer porque fui adestrada muito bem por todos a ficar quieta, engolir, não chorar, se conter, disfarçar e negar o que sentia. Negar a vontade de dizer, a vontade de fazer, negar a vontade de bater; negar a repulsa, o ódio momentaneo, esconder a Raiva, afinal, por que mantê-la escondida?!

Experimentei o levantar de voz, me ouvi gritando. Não xinguei, mas gritei. Ofendi com opiniões verdadeiras que sempre escondi por saber que são dolorosas ao dizê-las. Ofendi. Eu quis.
Enfrentei, me posicionei, perdão, coloquei a pessoa em um lugar inferior pra me posicionar maior que ela, mesmo sabendo que estava certa, porque queria que ela soubesse que eu estou certa. Queria que ela sentisse minha inteligência em entender uma ofensa e quis que ela soubesse quão forte eu posso ser quando estou com Raiva. Foi mesmo a Raiva que me deixou forte?

Senti meu coração bater forte, minhas mãos., que tremiam, pararam depois da primeira palavra dita, a sensação de poder é realmente fascinante. Minha Raiva controlou minha vontade...ou foi minha vontade que controlou minha Raiva?

Sim, controlei tudo: quis gritar, quis ofender, resisti a vontade de parecer fina...eu quis! E tive a quem culpar por tudo que eu orquestrei repentinamente.
Talvez eu devesse ficar quieta, esconder, ser vista como fraca mesmo.

Pobre raiva, agora com "r' minúsculo, exatamente para demonstrar como fico depois de usá-la para satisfazer minhas vontades.

Música para refeltir:

"I'll march my band out, i'll beat my drum
And if i'm fanned out, your turn at bat, Sir,
At least i didn't fake it, hat, Sir
I guess i didn't make it...
Nobody is gonna rain on my parade"
Don't rain on my parade